Certificados de Aforro, depósitos ou mercados monetários: as diferenças que ninguém te explica

Três formas de conservar capital com risco baixo. Rendem parecido, mas funcionam de forma muito diferente.

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O essencial

Certificados de Aforro, depósitos a prazo e mercados monetários são as três formas de risco mais baixo de guardar poupanças em Portugal. Rendem valores parecidos, mas funcionam de forma muito diferente.

As três dimensões de qualquer aplicação

Antes de comparar, há uma ideia base a ter presente: qualquer aplicação financeira se avalia em três dimensões, que podemos representar como os vértices de um triângulo.

Rentabilidade Risco Liquidez Ganhar numa dimensão costuma implicar ceder noutra
Nenhuma aplicação ganha nas três dimensões ao mesmo tempo.
  • Risco: posso perder dinheiro, e quem garante que não perco?
  • Liquidez: quando posso dispor do dinheiro, e com que custo?
  • Rentabilidade: quanto ganho, depois de impostos?

Nenhuma aplicação é a melhor nas três dimensões: quem quer mais rentabilidade aceita normalmente mais risco ou menos liquidez.

Os Certificados de Aforro, os depósitos e os mercados monetários têm o mesmo objetivo principal: conservar o capital, com risco baixo. O objetivo não é multiplicar o dinheiro, é protegê-lo enquanto não é necessário.

A escolha entre eles depende do objetivo desse dinheiro. Se podes precisar dele a qualquer momento, como num fundo de emergência, procuras mais liquidez. Se sabes que vai ficar parado durante anos, podes abdicar de liquidez em troca de mais rentabilidade.

Nas secções seguintes, analiso cada uma destas aplicações à luz destas três dimensões e comparo-as no final.

Certificados de Aforro

Os Certificados de Aforro são dívida do Estado português: emprestas dinheiro ao Estado e recebes juros em troca. O capital é garantido pelo Estado, através do IGCP. A série à venda hoje é a Série F, com prazo de 15 anos.

Rentabilidade. A taxa é a soma de duas partes: a taxa base, ligada à Euribor a 3 meses, e um prémio de permanência. A taxa base tem um chão de 0% e um teto de 2,5%. Desde setembro de 2026 está no teto, pelo que não sobe mais, mesmo que a Euribor continue a subir.

O prémio de permanência é o que distingue os CA: quanto mais tempo manténs o investimento, maior a taxa:

Anos de permanênciaPrémio somado à taxa base
1.º ano0
2.º ao 5.º+0,25 p.p.
6.º ao 9.º+0,50 p.p.
10.º e 11.º+1,00 p.p.
12.º e 13.º+1,50 p.p.
14.º e 15.º+1,75 p.p.

Liquidez. Podes resgatar tudo ou parte a partir do primeiro pagamento de juros, ou seja, ao fim de 3 meses. Quem resgata cedo abdica dos prémios dos anos seguintes.

Impostos. Os juros são pagos a cada trimestre e reinvestidos automaticamente, já líquidos de IRS. A retenção é de 28% e não é necessário declará-los no IRS.

Montantes e subscrição. O mínimo de subscrição são 10 €. Em abril de 2026, o limite da Série F subiu para 250.000 € por pessoa. Subscreves no AforroNet, nas lojas CTT ou em alguns Espaços Cidadão.

Em síntese: garantia do Estado, sem custos, e uma taxa que aumenta para quem mantém o investimento vários anos.

Depósitos a prazo

Num depósito a prazo emprestas dinheiro a um banco por um prazo fixo (3, 6, 12 meses ou mais) e recebes uma taxa combinada à partida. É a opção mais conhecida e também aquela em que a falta de comparação mais custa.

Risco. O banco. Se o banco falir, o Fundo de Garantia de Depósitos cobre até 100.000 € por depositante e por banco. Acima desse valor, faz sentido repartir por vários bancos.

Rentabilidade. Normalmente é fixa durante todo o prazo, o que te dá previsibilidade. A TANB é a taxa bruta; a TANL já desconta os 28% de IRS, retidos automaticamente.

A diferença entre a média e as melhores ofertas é significativa. Em agosto de 2026, a taxa média dos novos depósitos em Portugal foi de 1,63%, das mais baixas da área do euro.

Liquidez. O dinheiro fica preso até ao fim do prazo. Alguns depósitos permitem levantar antes ("com mobilização antecipada"), mas perdes parte ou a totalidade dos juros.

Atenção às condições. Muitas das melhores taxas são só para novos clientes, para dinheiro novo ou para montantes limitados. Lê sempre a Ficha de Informação Normalizada (FIN).

Em síntese: previsibilidade e garantia até 100.000 €, desde que se compare a oferta de vários bancos.

Mercados monetários

Um fundo de mercado monetário é um fundo que aplica o dinheiro em empréstimos de curtíssimo prazo entre bancos. O rendimento acompanha quase ao dia as taxas do Banco Central Europeu. É a opção menos conhecida em Portugal, mas está disponível na maioria das corretoras.

Rentabilidade. A referência é a €STR, a taxa a que os bancos da zona euro emprestam dinheiro entre si de um dia para o outro. A 28 de outubro de 2026 estava em 2,44%, depois de o BCE ter subido a taxa de depósito para 2,25% em junho e para 2,5% em setembro. Quando o BCE altera as taxas, o fundo acompanha quase de imediato.

Um exemplo concreto: o XEON. O Xtrackers II EUR Overnight Rate Swap UCITS ETF é o fundo de mercado monetário em euros mais usado na Europa, com mais de 20 mil milhões de euros. Replica a €STR mais 0,085 p.p., tem uma comissão anual (TER) de 0,10% e é de acumulação: os juros ficam dentro do fundo. Na prática, rende aproximadamente a €STR.

Risco. Não existe garantia. Não tem a proteção do Estado nem a dos 100.000 € do Fundo de Garantia de Depósitos. O risco é muito baixo, porque o prazo dos empréstimos é de um dia, mas não é zero. No XEON há ainda um detalhe técnico: o rendimento é obtido através de um contrato com um banco (swap), e não detendo os empréstimos diretamente. Existem alternativas que os detêm fisicamente, com comissões um pouco mais altas.

Liquidez. É a maior vantagem: compras e vendes em qualquer dia de bolsa, como uma ação. Não há prazos nem penalizações.

Impostos. Num fundo de acumulação não há juros pagos, logo não há retenção. Só pagas 28% sobre o ganho quando vendes, e tens de o declarar no IRS (Anexo J, se a corretora for estrangeira). Adiar o imposto permite que esse valor continue a render.

Custos. Além do TER, conta com as comissões da corretora na compra e na venda. Para valores pequenos ou movimentos frequentes, podem absorver uma parte relevante do rendimento.

Em síntese: a opção mais flexível e que acompanha as taxas do BCE, em troca de não ter garantia e de exigir mais atenção no IRS.

Comparação lado a lado

A maior diferença não está na taxa, está em quem garante o dinheiro e em quando se pode dispor dele.

Certificados de Aforro (Série F)Depósitos a prazoMercados monetários (ex.: XEON)
Risco (quem garante)Estado portuguêsBanco + Fundo de Garantia até 100.000 €Sem garantia (risco muito baixo)
RentabilidadeVariável: Euribor 3M com teto de 2,5% + prémioFixa durante o prazoAcompanha a €STR, menos comissões
Prémio por permanênciaSim, até +1,75 p.p.NãoNão
LiquidezApós 3 mesesNo fim do prazo (ou perdes juros)Qualquer dia de bolsa
Impostos28% retidos nos juros28% retidos nos juros28% sobre o ganho, só na venda
CustosNenhumNenhumTER + comissões da corretora
Mínimo10 €Varia por bancoPreço de 1 unidade (ou fração)

Como pensar na escolha

Não há uma resposta única. A escolha depende sobretudo de três fatores: o prazo, o objetivo do dinheiro e a flexibilidade de que precisas.

Quando o dinheiro tem um fim definido e uma data conhecida, a previsibilidade de uma taxa fixa tende a pesar mais. Quando é uma reserva para imprevistos, a liquidez ganha importância, mesmo que isso custe alguma rentabilidade.

Se o horizonte é longo e não há intenção de lhe tocar, faz sentido valorizar as opções que recompensam a permanência. Para montantes elevados, a forma como cada garantia funciona passa a ser um critério por si só. Na prática, é comum combinar mais do que uma opção, cada uma com o seu papel.

Os números deste mês

As regras deste artigo mudam pouco. As taxas mudam todos os meses. Na rubrica A Fasquia atualizo mensalmente quanto rende cada opção: bruto, líquido e descontada a inflação.

Isto é informação educativa, não uma recomendação financeira.

Fontes